Um bispo entre o povo: a história de Dom Miele (1972-1981)

 em Notícias da Arquidiocese
Pe. Miele. Imagem: Diário de Notícias.

Dom Bernardo José Bueno Miele andava corriqueiramente pelas ruas da cidade e conhecia de perto a realidade social em que vivia. Lembrado por sua humildade, governou a Igreja de Ribeirão Preto como seu quarto arcebispo metropolitano assinalando-a com o espírito conciliar. Constantemente presente entre os movimentos eclesiais, guardou intrínseca amizade com o seu presbitério e com os leigos, deixando transparecer, assim, o constante serviço do bispo ao seu povo.

Desde criança Bernardo esteve próximo à Igreja, estudando sob a orientação dos irmãos maristas em um colégio na capital paulista. Ao chegar o momento de decidir-se profissionalmente, optou por seguir a carreira de engenheiro e matriculou-se na Escola Politécnica de São Paulo com vistas à formação em minas e metalurgia. No entanto, deixou os estudos seculares para seguir sua vocação. Então, ingressou no Seminário Central do Ipiranga, onde licenciou-se em filosofia e, depois, partiu para Roma para completar sua formação teológica. Lá recebeu a ordenação presbiteral em 8 de dezembro de 1950 e permaneceu para aperfeiçoar-se em direito canônico.

De volta ao Brasil, Pe. Miele exerceu funções magistrais no Seminário ao qual estudara, atuando como professor e secretário da faculdade de teologia. Auxiliava, ainda, na formação de comunidades e na ereção de novas paróquias da capital. Reconhecida sua capacidade didática que se aliava a seu aprofundado conhecimento, foi nomeado reitor do Seminário Filosófico de Aparecida. No entanto, permaneceu nesse ofício por menos de um ano, visto que logo o Papa João XXIII o elegeu bispo auxiliar de Dom Paulo de Tarso Campos, arcebispo de Campinas.
Em 10 de fevereiro de 1963 iniciou seu ministério episcopal sendo ordenado na Catedral de Campinas. Depois de dez anos de intenso trabalho, retornou a Roma como bispo e integrou o episcopado lá reunido durante três sessões do Concílio Vaticano II. Na arquidiocese em que auxiliava, propiciou a formação do clero, de religiosos e religiosas e de leigos a partir dos documentos conciliares como também viajou para outras dioceses com o propósito de inteirar-se de suas realidades pastorais.

Bula de nomeação de D. Miele. Imagem: Museu do Seminário Maria Imaculada. Brodowski – SP.

Chegou a Ribeirão Preto, no entanto, devido a um pedido do arcebispo metropolitano, Dom Frei Felício César da Cunha Vasconcelos, OFM, que solicitou ao papa um bispo que colaborasse pastoralmente com ele, já que começava a sentir sua saúde enfraquecida. Desse modo, Dom Miele foi eleito arcebispo coadjutor, dando-lhe o direito à sucessão. Tomou posse no dia 3 de abril de 1967. Acolhido em festiva noite, sob a execução da “Marcha Pontifícia” pelo 3º Batalhão de Polícia, foi saudado pelo Côn. Horácio Longo, em nome do clero, e pelo Dr. Geraldo Duarte, em nome do laicato arquidiocesano (Livro Tombo da Arquidiocese de Ribeirão Preto nº 11, p. 33).

Dom Miele iniciava seu exercício ministerial em Ribeirão Preto, que o marcaria, enquanto coadjutor, por sua fidelidade à amizade e à autoridade de Dom Frei Felício, que lhe concedeu o ofício de vigário episcopal, atribuindo-lhe os direitos do ordinário da Arquidiocese. Esse gesto evidenciou a confiança e a unidade entre os dois arcebispos.

Ordenação presbiteral do Côn. Francisco de Assis Correia. Imagem: Diário de Notícias.

Assim, em 1968, organizou o funcionamento do Secretariado de Pastoral – serviço criado que passou a funcionar em subdivisões no Salão Dom Alberto –, bem como presidiu as mensais reuniões do Conselho Presbiteral, instituído a partir das diretivas da Igreja no Brasil. Acompanhou a fase final da construção da Casa Dom Luís, em Brodowski – SP e inaugurou-a.
Nesse mesmo ano, devido à renúncia de Dom Artur Horsthuis ao governo da Diocese de Jales, o Papa Paulo VI nomeou Dom Miele como administrador apostólico da referida Sé. Desse modo, ele transitou entre Ribeirão Preto e Jales a fim de cumprir os compromissos pastorais até novembro de 1970, depois de quase dois anos na função.

Dom Frei Felício faleceu na tarde de 11 de julho de 1972. Duplo comunicado foi publicado pela Cúria Metropolitana: a morte do arcebispo franciscano e a consequente sucessão do ofício, que a partir daquele momento passava a ser ocupado por Dom Miele. Seu governo apontou prioritariamente para a colegialidade à luz conciliar e, dessa forma, ele convocou a 1ª Assembleia Arquidiocesana de Pastoral, a qual presidiu e orientou na delimitação dos pontos essenciais de trabalho. Ouvia o clero e o povo e buscava encaminhá-los de acordo com as contemporâneas necessidades da Igreja.

D. Miele e Côn. Arnaldo Álvaro Padovani. Imagem: Arquivo Metropolitano.

Visando aumentar a capacidade formativa arquidiocesana, criou o Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (CEARP). Além do curso de filosofia – antigo Curso de Preparação ao Presbiterado criado em 1968 – passou a haver a formação teológica para seminaristas e agentes de pastoral. Nesse sentido organizativo, por sua assinatura, a Cúria Metropolitana foi inscrita no cadastro de personalidade jurídica, ganhando estatuto empresarial. Ademais, criou grupos consultivos para melhor governar a Igreja particular, a exemplo do Conselho Arquidiocesano de Pastoral e do Conselho Administrativo da Arquidiocese.

D. Miele dias antes de sua morte, na ordenação presbiteral do Côn. José Carlos Rossini. Imagem: Acervo pessoal.

Dom Miele esteve presente e unido ao seu presbitério do mesmo modo como manteve estreita proximidade com famílias católicas ativas no serviço pastoral. Fomentou, sobretudo, a presença e a atividade leigas nos movimentos de espiritualidade familiar, nos Cursilhos, na Sociedade São Vicente de Paulo e nas Equipes de Casais de Nossa Senhora. Para melhor atender as necessidades dos fiéis, pôs em prática o diaconato permanente. Ordenou o primeiro diácono para o serviço litúrgico e caritativo em 1977 e, nos anos que se seguiram, mais dez homens passaram a compor a diaconia arquidiocesana.

Jornais da cidade noticiam a morte do arcebispo. Imagem: Arquivo Metropolitano.

Aos 58 anos de idade padecia de uma leucemia que o debilitava, no entanto, buscava cumprir assiduamente seus compromissos pastorais de arcebispo. Em dezembro de 1981, Dom Miele ordenou – mesmo com sua frágil condição – três novos padres para o presbitério arquidiocesano. Como desejava passar o Natal em Aparecida do Norte – SP, partiu rumo ao Santuário, mas faleceu durante a viagem, em Guarulhos, na noite do dia 22 de dezembro. Memoram-se, assim, o despojamento e a presença entre o povo que se tornaram a grande característica da pastoral de Dom Miele.

Bruno Paiva Meni
Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”

 

Fontes

ARQUIVO METROPOLITANO “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”. Arquidiocese de Ribeirão Preto, Cúria Metropolitana, Caixa 10.

CORREIA, Côn. Francisco de Assis. História da Arquidiocese de Ribeirão Preto (1908-2008). Editora Grafcolor, 2008.

LIVRO TOMBO Nº 11. Arquidiocese de Ribeirão Preto, Cúria Metropolitana. Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”.

Fonte: https://arquidioceserp.org.br/um-bispo-entre-o-povo-a-historia-de-dom-miele-1972-1981/

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